A ascensão da China na corrida global por Inteligência Artificial
A China não está mais atrás: Países travam uma nova Guerra Fria tecnológica, e a ambição de Pequim de se tornar potência em IA até 2030
- Publicado: 15/01/2026
- Alterado: 01/11/2025
- Autor: Redação
- Fonte: Fever
A China está acumulando a Inteligência Artificial (IA) – a “nova moeda de troca” do poder global – em larga escala. Desde que Pequim declarou, em 2017, sua audaciosa meta de se tornar a principal potência mundial em IA até 2030, o país iniciou um fluxo de investimentos bilionários em inovação tecnológica. Apenas em 2025, a soma dos aportes dos setores público e privado na China deverá ultrapassar a marca de 100 bilhões de dólares, um movimento que está redefinindo o cenário da alta tecnologia.
Os primeiros e surpreendentes resultados dessa ofensiva já estão à vista. A comunidade tecnológica global foi pega de surpresa com a ascensão da DeepSeek, uma startup cujos Modelos de Linguagem de Grande Escala (LLMs) demonstram capacidade para rivalizar com gigantes ocidentais como o ChatGPT e o Grok. O diferencial da DeepSeek não é apenas o desempenho comparável, mas o custo de implementação significativamente menor.
Gigantes como a Alibaba também se movimentam ativamente. Após lançar um modelo de IA poderoso, a empresa anunciou planos robustos para expandir a construção de data centers ao redor do mundo, sinalizando que as maiores companhias de tecnologia da China levam a sério o embate contra os EUA pelo domínio na IA. A Tencent elevou ainda mais a barra da competição com o lançamento do Hunyuan-A13B, um modelo de IA de código aberto que busca ser mais rápido e eficiente que seus concorrentes, inclusive os chineses.
💰 Como o modelo de código aberto ajuda a China a Diminuir a Distância

A mobilização orquestrada entre startups, tech giants e o próprio Estado chinês está rapidamente encurtando a distância tecnológica em relação ao Ocidente. O CEO da Nvidia, Jenson Huang, um dos principais players do setor de chips, já alertou contra a complacência, afirmando que os EUA “não estão muito à frente” da China na corrida da IA. Huang destaca a velocidade da sociedade chinesa na adoção de novas tecnologias como um fator crucial.
Uma das grandes vantagens estruturais do país asiático é sua vasta população – mais de um bilhão de pessoas online – que serve como uma espécie de base de testes integrada. Isso permite que novos produtos de IA se disseminem e sejam aprimorados em ritmo acelerado entre indústrias, serviços e consumidores.
Especialistas desfazem o mito da desvantagem ocidental. O professor de ciência da computação Pedro Domingos, da Universidade de Washington, afirma que a China tem se movido na mesma velocidade que os EUA, superou a fase de recuperação e agora está na fronteira, buscando a liderança. Segundo ele, havia um “equívoco” generalizado de que os EUA estavam muito à frente em LLMs, citando esforços chineses anteriores a 2010 que estavam na vanguarda.
- A Estratégia do Acesso Livre: Ao disponibilizar poderosos modelos de IA como DeepSeek, Qwen-3 e Kimi K2 como código aberto, as empresas chinesas estão oferecendo acesso gratuito a ferramentas de ponta para desenvolvedores globais.
- A Vantagem do Custo: Modelos chineses são, em geral, projetados para rodar em hardware menos sofisticado, tornando sua implementação mais acessível e barata.
Essa abordagem contrasta com a postura sigilosa de muitas rivais ocidentais, que mantêm seus códigos-fonte fechados. Domingos lamenta que essa estratégia americana, adotada por questões de concorrência, acabe sendo “lamentável para a inovação“.
A intensa competição interna é outro fator de avanço: a mídia estatal chinesa reportou que, até meados do ano, as empresas do país haviam lançado mais de 1.500 modelos de LLM, o que representa 40% dos modelos lançados globalmente no período. Embora haja a preocupação de que essa concorrência possa se tornar “desordenada” – e Pequim já tenha instado o setor a evitar excessos – a movimentação garante inovação contínua. De acordo com a classificação da OpenCompass, a China detém 14 dos 20 principais modelos de IA do mundo em áreas como matemática, raciocínio e codificação, com destaque para nove modelos de código aberto, algo que nenhuma empresa americana repete.
🛡️ Sanções Americanas: O efeito Inesperado que Acelera a Independência da China
Embora o progresso em IA seja rápido, o país ainda enfrenta um gargalo: os chips avançados necessários para o treinamento veloz de LLMs. As limitações de exportação impostas pelos EUA visavam bloquear o acesso da China a semicondutores de ponta. Contudo, a resposta de Pequim foi intensificar os esforços para construir sua própria indústria de chips, incluindo a proibição de importações de fornecedores importantes dos EUA, como a Micron.
O resultado desse movimento forçado está sendo a inovação sob pressão. A pressão para encontrar soluções eficientes e mais inteligentes em meio às restrições está fazendo com que metas de longo prazo, como a maior independência tecnológica, sejam alcançadas mais cedo. A Cambricon Technologies, por exemplo, rival chinesa da Nvidia, viu sua receita trimestral aumentar 14 vezes, beneficiada pelas sanções que obrigaram startups a buscar alternativas locais.
“As restrições dos EUA à exportação de chips para a China são contraproducentes,” comenta Domingos. “Elas incentivam empresas como a DeepSeek a otimizar hardware mais antigo e fazem a pesquisa avançar,” exemplificando como a empresa construiu modelos de IA poderosos com chips menos avançados.
🌎 Como a China molda os padrões Globais
Os EUA ainda lideram a pesquisa em IA no desenvolvimento de sistemas mais seguros, que evitem comportamentos prejudiciais e compreendam melhor a linguagem humana. Contudo, a China está ganhando terreno no impacto e no alcance internacional da tecnologia. O país está exportando sua infraestrutura de IA e seus modelos de código aberto para nações em desenvolvimento que buscam infraestrutura digital. Empresas como Huawei e Alibaba constroem plataformas de nuvem e data centers na Europa, África e Ásia, oferecendo alternativas de menor custo em relação às concorrentes americanas.
Mais do que tecnologia, Pequim busca impulsionar suas próprias estruturas de governança de IA internacionalmente, com o objetivo de moldar os padrões globais aos seus interesses. Ao promover modelos treinados com valores sociais e dados chineses, o governo quer influenciar a forma como os sistemas de IA interpretam a cultura e a história – um esforço que reflete a visão de um regime com controle rígido sobre a liberdade de expressão.
O diretor do Instituto de Direito e Inovação em IA da Universidade da Califórnia em São Francisco, Robin Feldman, define a corrida de IA em termos definitivos: uma nova forma de Guerra Fria. Ele conclui que esse conflito será vencido pelo país que “conseguir desenvolver e manter a liderança em inteligência artificial.”